Sobre o suicídio de D. J.

D.J., uma moça de perfil bastante militante, estudante de universidade federal, que esta página facilmente teria chamado de “justiceira social”, cometeu suicídio no último sábado em Palmas, Tocantins.

Há ressalvas preliminares que devem ser feitas antes de eu chegar ao ponto que justifica mencionar o caso aqui. Quem não tiver paciência de lê-las, pode pular os parágrafos numerados a seguir.

1) Está certo quem dirá que noticiar esses casos é irresponsabilidade, pois pode levar a imitações. Infelizmente, um site de notícias da região já decidiu noticiar, e as comunidades ativistas das quais ela fazia parte já estão propagando o caso pelas redes sociais. Dificilmente a menção do caso por aqui fará grande diferença no quão propagado ele já está.

2) Podemos responder a quem quiser alegar que estamos fazendo uso político cínico de uma tragédia. Entendemos perfeitamente essa objeção, mas o que ela falha em perceber é que as crenças criticadas por esta página podem ter tido um papel nas causas que levaram à tragédia. Se isso é verdade, nós devemos comentar, não nos silenciar a respeito.

3) Digamos o óbvio: o suicídio é algo trágico, frequentemente resultado de depressão não tratada. Lamentamos pela perda da vida de D.J. É um horror ainda mais saliente pela sua juventude e futuro agora perdidos. Encorajamos quem já teve ideações suicidas que procure ajuda, que desabafe com os amigos, que não fique sofrendo sozinho e que busque alterar sua rotina para uma vida diária mais condutiva ao bem-estar (exercícios ajudam muito, por exemplo).

Uma descoberta interessante da psicologia científica é que enquanto sociedades muito religiosas e conservadoras são mais infelizes que sociedades mais liberais e seculares, o contrário é verdade para indivíduos: indivíduos mais conservadores são mais felizes. Por que? As explicações são especulativas, mas esses indivíduos tendem a ter, por exemplo, mais traços de personalidade como a conscienciosidade, que leva a uma vida mais regrada, disciplinada. Uma vida regrada e ativa faz mais bem à mente que uma vida de caos, sem rotina alguma, que tende a ser correlacionada com outros fatores que fazem mal ao bem-estar, como o sedentarismo.

Há mais uma característica nesses indivíduos, também, que tende a estar ausente nos indivíduos mais propensos a se engajarem em militâncias e passar seu dia esbravejando contra a sociedade de uma forma filosoficamente pouco sofisticada que faz mais mal a eles mesmos que à sociedade que dizem detestar. Essa característica é um senso de propósito para sua vida, uma justificação satisfatória para o que fazem de seus dias. É aqui que as crenças desempenham um papel importantíssimo no bem-estar mental, e podem fazer a diferença entre a depressão e a mera tristeza, e entre uma depressão tratada e uma depressão que culmina em suicídio. A filósofa Susan Wolf propõe, inclusive, que é esse senso justificado de propósito que está por trás da ideia de “sentido da vida”. E as pessoas são muito sensíveis a isso. Se estão fazendo coisas que se revelam em última análise fúteis, como esbravejar impotentes contra forças dominadoras (reais ou percebidas) contra as quais nada de concreto podem fazer, intuitivamente percebem que estão perdendo o sentido da vida, e sua saúde mental paga o preço.

A intenção aqui não é dizer que o conservadorismo está certo (ele sequer é um conjunto coerente de crenças, e claramente está errado em casos como o casamento gay). É, antes, apontar para o papel das crenças e dos nossos modos de vida no nosso bem-estar mental, e lembrar que somos todos, em algum nível, conservadores. Todos somos herdeiros de milênios de experiências dos nossos antepassados, de instituições que ficaram por tentativa e erro mais do que por justificação explícita ou invenção de alguém com nome e sobrenome. Fomos na maioria criados por famílias tradicionais, que apesar de sempre terem problemas são um norte e uma âncora para boa parte de nós, além de uma rede de proteção. Se você quer manter em vez de destruir ou mudar para algo irreconhecível a família, você é conservador. Só que os próprios conservadores não percebem, por exemplo, que o casamento gay é uma afirmação da instituição da família: grupos que eram excluídos de uma participação plena na família agora querem ter as suas próprias. A instituição pouco muda se é chefiada por duas pessoas do mesmo sexo.

D.J. era órfã de pai e mãe. Perdeu, portanto, um importante elemento de sua rede de proteção. Isso realça que não podemos alegar que foi a militância que a levou ao suicídio, mas afirmaremos aqui que a militância não ajudou. Anos atrás a feminista Cynthia Semíramis alertou para uma moda crescente de tratar militância como substituta de terapia. Desde então a coisa piorou, e ela foi difamada por ter feito esse e outros alertas. Militância não é terapia, e militância provavelmente piora o quadro psicológico de quem se engaja nela de uma forma irracional, que piora a rotina de estudos, que piora uma vida regrada, calma e condutiva ao bem-estar psicológico.

“Não vou ser mais uma vítima de opressor”, disse D.J. numa música. Essa frase expressa um desejo urgente de pessoas como ela, engajadas da forma como ela se engajava em causas sociais: com protestos constantes em redes sociais, com obras de arte para expressar angústia em vez de ver beleza no mundo, com denunciações contra “opressores” reais ou percebidos, e, talvez acima de todos os fatores anteriores, com uma insistência num senso coletivo de identidade com grupos oprimidos: eu sou meu grupo, meu grupo é especial, sou uma sardinha num cardume e não há nada que eu possa fazer para ser singular e meritoso fora dessa identidade. Na verdade, tentar ser singular e meritoso é aplaudir sistemas e estruturas de “opressão” como o capitalismo, o patriarcado e as “heteronormas”.

A hipótese apresentada aqui, que pouquíssimos querem aventar, diz respeito à possibilidade de a morte de D.J. ter sido causada também por essas crenças que a botavam, apesar de suas próprias palavras, na condição de vítima, num estado mental de constante apreensão, num sistema dogmático que a prendia em estresse permanente. As pessoas são profundamente afetadas por suas crenças, e são capazes de viver imersas em narrativas sem conexão com a realidade. A condição de “luta” de oprimidos contra opressores é intrinsecamente autodestrutiva. Recomendar a minorias que “resistam” e “lutem” contra maiorias opressoras já é por si só uma receita para a autodestruição. Uma pessoa pode viver num país pacífico mas convencer a si mesma de que é uma combatente numa guerra em que não tem vantagem.

Por fim, convém fazer um trabalho de esclarecimento da mensagem nuançada que esta página tem por trás dos deboches e transgressões dos novos tabus politicamente corretos. Acima, falamos de opressores reais ou percebidos. Pois bem, se um ativista diz estar lutando contra um “patriarcado/supremacia branca/capitalismo/etc” fantasmagórico, sistêmico, inefável, que sequer consegue definir bem ou dar exemplos concretos com real nexo causal entre si, seu “opressor” provavelmente é mais percebido e imaginado que real. E é por isso que insistimos em mostrar aqui as maluquices extremas feitas em nome dessa “luta” contra opressores imaginários, sistemas e estruturas sociais mal definidos, mais alegados que claramente evidenciados.

Esperamos que os seguidores percebam que há sim uma diferença entre isso e atividades que de fato diminuem os efeitos de racismo, sexismo, homofobia etc (que jamais vão sumir e não devem ser transformados em crimes de pensamento). E é essa a diferença entre os (raros) bons ativistas e os justiceiros sociais. E é uma diferença que também pode corresponder à diferença entre tentar melhorar com paciência e compreensão uma sociedade (com a humildade de reconhecer que nem todas as tradições são perniciosas, e nem tudo que não é justificado com argumentos deve ser destruído) e prender-se numa espiral descendente de (auto-)destruição.

Que ela descanse em paz.