Quem pariu os justiceiros sociais pós-modernos: o liberalismo ou o marxismo?

O pós-modernismo e os justiceiros sociais são crianças feias cuja paternidade ninguém quer assumir (nem maternidade, são o Benjamin Button abandonado na porta de alguém).

Primeiro, vamos esclarecer uma coisa: justiceiros sociais nem sempre são o que são por influência direta de autores pós-modernos, embora com frequência usem jargão e ideias de segunda mão com origem neles. Por uma simples razão: alegar que tudo é subjetivo, que as “meta-narrativas” não têm bases sólidas, que tudo é relativo torna as pessoas que adotam essas ideias imunes a estarem erradas em qualquer coisa. Então não pode ser o caso, por exemplo, que elas são racistas: você é que quer impor uma narrativa e um conceito de racismo que elas rejeitam, e elas podem escolher continuar agindo como agem por causa de “estruturas” e “instituições” e aquele blablablá batido que já conhecemos. O maior amigo da soberba é o relativismo. Sem bases objetivas para tornar o pensador humilde, ele tem desculpa de sobra para se deixar guiar pelos seus vieses irracionais (de fábrica no ser humano): egocentrismo, corporativismo (de gênero, de raça, de orientação sexual etc.), viés da confirmação etc. Então, muitos justiceiros sociais são justiceiros sociais muito mais por irracionalidade acoplada a um fervor moral absolutista (não importa o quanto seja incoerente ser absolutista na moral e relativista da boca pra fora).

Mas, tornemos ao pós-modernismo e à sua influência sobre os justiceiros sociais, que realmente existe. Quando universitários da África alegam que a bruxaria é aceitável porque conhecem bruxos que atiram raios onde quiserem, não importa o que a ciência diga, isso claramente é fruto do relativismo do pós-modernismo sobre o conhecimento, e eles são, previsivelmente, estudantes das humanas.

Pegando algum autor pós-moderno ainda vivo, como a Judith Butler, vemos que uma de suas marcas é a escrita embotada, obscura, que finge dizer coisas importantes com vocabulário rebuscado, que quando traduzidas para a língua dos mortais dizem (1) algo banal e desimportante ou (2) algo radical e falso.

Marxistas tentam jogar a criança feia do pós-modernismo na cesta do liberalismo. Alegam que a obsessão dos pós-modernos com identidades subjetivas é prova de um individualismo exagerado, não de um coletivismo análogo à luta de classes. Os liberais respondem que todas essas identidades – raça, orientação sexual, identidade de gênero etc – são coletivos. Que justiceiros sociais sob influência pós-moderna julgam as pessoas pelos coletivos aos quais pertencem, em vez de pelas suas características individuais. Então é coletivismo, não individualismo.

Há várias formas de resolver uma disputa, e eu vou apelar para uma forma que não tinha apelado ainda: comparação de estilos de escrita.

Muitas das figuras-chaves do liberalismo – John Stuart Mill, Karl Popper, Friedrich Hayek – escreviam de uma forma cristalinamente clara. Os pontos eram todos explícitos, e não havia nada comparável à prosa nebulosa de Judith Butler ou Jacques Derrida. E todos esses liberais eram amigos da ciência, enquanto os pós-modernos ou são céticos quanto às fundações objetivas da ciência, ou só citam ciência para atacá-la (Jacques Derrida alega que ciência é só uma narrativa entre outras igualmente fidedignas; Butler dedica 6 páginas de “Problemas de Gênero” a problematizar de forma tosca um artigo de biologia molecular). De um lado temos, então, um “grande estilo” liberal que é claro e pró-ciência; de outro temos um “grande estilo” pós-moderno que ou ataca a ciência ou a vê como um pião em seu jogo ideológico.

Quem se assemelha mais aos pós-modernos: os intelectuais liberais, ou os intelectuais marxistas? A resposta é insofismável: são os marxistas. Marilena Chauí (não que ela seja importante no mundo, só é levada a sério no Brasil) é uma marxista que escreve teses explicitamente relativizadoras da ciência em seus manuais de filosofia. Lembro de uma passagem dela sobre a ciência da ebulição da água que poderia ser perfeitamente botada na boca de Derrida. Mas meus exemplos (numa busca não exaustiva) não param no Brasil. Tenho um exemplo arrebatador: o braço direito de Marx, o homem que financiou os dez anos de boa vida que Marx levou para escrever O Capital (pelo visto seus seguidores nas universidades seguem o exemplo à risca, parasitando dinheiro público): Friedrich Engels.

“A incomensurabilidade ordinária, por exemplo do círculo e da linha reta, é também uma diferença dialética qualitativa; mas aqui é a diferença na quantidade de magnitudes similares que aumentam a diferença da qualidade ao ponto da incomensurabilidade.”

“Identidade e diferença – a relação dialética já é vista no cálculo diferencial, onde dx é infnitesimalmente pequeno, mas, ainda assim, é efetivo e faz tudo.”

“Um exemplo muito bom da dialética da natureza está na forma em que, de acordo com a teoria atual, a repulsão de pólos magnéticos semelhantes é explicada pela atração de correntes elétricas semelhantes.”

Fonte: Friedrich Engels: Dialectics of Nature, disponível aqui.

Vê-se em Engels o mesmo hábito dos pós-modernos: uma escrita obscura, cheia de papo-furado e disparates, abusando de termos científicos que claramente não entende, e tentando enfiar conceitos ideológicos dentro das teorias científicas, da mesma maneira que a feminista pós-moderna Luce Irigaray enfiava sexismo nas teorias científicas, alegando que a mecânica dos fluidos não avançou tanto quanto a dos sólidos pois fluidos representam o fluxo menstrual feminino e sólidos representam a ereção masculina.

Não creio que preciso apresentar mais. O marxismo, mesmo se não tiver sido uma condição suficiente para o pós-modernismo e as loucuras ativistas que derivam dele, foi necessário para que fossem o que são hoje. Desde o começo da infiltração da escrita obscura e pseudo-intelectual na academia, foram os liberais que se opuseram a ela, como Popper fez com Habermas e Adorno (filhotes do marxismo que o modificaram em outra coisa).

Não há como negar isso e manter intacta a honestidade intelectual.