Universidade obrigada a pagar U$ 33 milhões a padaria difamada como racista por seus estudantes justiceiros sociais

Para entender o caso: matéria da Associated Press

CLEVELAND (AP) — Os donos de uma loja numa cidade com fama de esquerdista [Oberlin, Ohio, EUA] ganharam U$ 44 milhões em danos esta semana em seu processo judicial que alega que a universidade Oberlin College prejudicou seu negócio e os difamou, num caso que alguns observadores dizem que incorporou a hipersensibilidade racial e o politicamente correto sem limites.

Um júri do condado de Lorain concedeu a David Gibson, a seu filho Allyn Gibson e à Padaria Gibson, da cidade de Oberlin, U$ 33 milhões em indenização punitiva na última quinta-feira. Esse valor se soma de uma outra indenização compensatória concedida um dia antes, de U$11 milhões.

“Senhoras e senhores, nós os ouvimos”, disse Rachelle Zidar, advogada da Oberlin College, ao júri na quinta antes que a indenização maior fosse anunciada, de acordo com o Elyria Chronicle-Telegram. “Vocês expressam uma mensagem profunda. Nós os ouvimos. Acreditem em mim quando eu digo que as universidades por todo o país os ouviram.”

O porta-voz da Oberlin College, Scott Wargo, se recusou a comentar após a indenização ser anunciada.

Os problemas entre os Gibsons, com sua antes amada padaria, e a universidade começaram em novembro de 2016, depois que Allyn Gibson, que é branco, confrontou um estudante negro da Oberlin que tinha furtado vinho. Dois outros estudantes negros se juntaram a ele e agrediram Gibson, disse a polícia.

No dia após a prisão dos jovens, centenas de estudantes protestaram à porta da padaria. Membros do diretório de estudantes da Oberlin College publicaram uma resolução que dizia que os Gibsons tinham “um histórico de estereotipagem racial e tratamento discriminatório”.

Quando notícias dos protestos se espalharam online, motociclistas e contra-manifestantes logo convergiram para a cidade para zombar dos estudantes e fazer compras na Padaria Gibson. Os conservadores ridicularizaram os estudantes nas mídias sociais como “floquinhos de neve” mimados, enquanto os estudantes atacavam a loja como um símbolo do racismo sistêmico.

Os Gibsons abriram um processo contra a Oberlin e contra o decano dos estudantes em novembro de 2017, acusando professores da instituição de incentivarem os protestos. O processo judicial dizia que os guias que apresentavam a universidade a potenciais novos estudantes os informavam que a padaria era racista.

Os Gibsons disseram que os protestos destruíram o seu negócio e os forçaram a demitir funcionários. Também que não puderam pagar a si mesmos ou a outros membros da família desde que os protestos começaram.

Os três estudantes negros mais tarde confessaram culpa dos delitos e leram declarações na corte que diziam que as ações de Allyn Gibson não tinham motivações raciais.

A universidade inicialmente encerrou negócios com a padaria, mais tarde reatou o relacionamento, mas rompeu novamente quando os Gibsons iniciaram a ação.

A universidade de Oberlin tem sido há muito tempo uma guardiã do liberalismo [no sentido exclusivamente americano, que se confunde com a esquerda]. Durante os anos 1830, tornou-se uma das primeiras universidades a aceitar negros e mulheres. Durante os anos 1850, tornou-se um ponto do metrô local.

Hoje, cerca de 15% dos 8300 residentes são negros.

Mais recentemente, outras notícias citaram seus estudantes por terem reclamado do sushi e dos sanduíches vietnamitas servidos na cantina da instituição por serem apropriação cultural.

Os advogados dos Gibsons declaram que a universidade, que cobra U$70 mil por ano por ensino e estadia de cada estudante, tem um patrimônio de U$ 887 milhões e poderia facilmente pagar o que é de direito da família pelo ocorrido.

O campus arborizado da Oberlin fica a cerca de 56km a sudeste dos subúrbios de Cleveland.

Mais detalhes da condenação da Universidade Oberlin e vitória da Padaria Gibson

(Por William A. Jacobson, no Legal Insurrection) O júri gerou seu veredito sobre a indenização punitiva no caso Padaria Gibson vs. Oberlin College.

Daniel McGraw, nosso repórter na corte, relata que, além dos U$11,2 milhões em danos compensatórios concedidos na última sexta-feira, o júri concedeu um total de U$ 33 milhões em danos punitivos, valor que provavelmente será reduzido pelo tribunal a U$ 22 milhões por causa da lei do teto estadual por indenizações duplas (não é um teto absoluto, mas provavelmente será aplicado). Isso dá um total de U$33 milhões em indenização. Mostremos como serão distribuídos abaixo. O júri também concedeu reembolso pelos honorários dos advogados, a serem determinados pelo juiz.

A distribuição foi:

David Gibson — U$ 17,5 milhões em danos punitivos

Allyn W. Gibson — U$ 8,75 milhões em danos punitivos

Gibson Bros. Inc. (a padaria) — U$ 6.973.500 em danos punitivos.

Minha declaração sobre o veredito:

“A Oberlin College tentou sacrificar uma estimada padaria, em funcionamento há cinco gerações, seus donos e seus empregados, no altar do politicamente correto, tudo para fazer a vontade de uma turba de ‘guerrilheiros da justiça social’. O júri passou a mensagem clara de que a verdade é importante, e também as reputações e vidas das pessoas que são alvo de falsas acusações, em particular quando essas falsas acusações são espalhadas por instituições poderosas. Ao longo do julgamento a defesa da Oberlin College foi insensível e pejorativa contra a padaria e seus donos, quase dizendo que a padaria não tem valor. O júri afirmou que todas as vidas são importantes, incluindo as vidas de pessoas comuns, trabalhadoras, que não fizeram nada de errado além de não deixar que as pessoas furtassem.”

Reação de David Gibson

“Agradeço ao júri por ter lidado com esse Golias. Foi uma atitude corajosa deles. O que eles fizeram foi permitir que nós possamos manter nossas luzes acesas. [Visivelmente emocionado.] Foi nos dar a oportunidade de manter as luzes acesas para mais uma geração.”

Declaração de David Gibson após o julgamento

Daniel McGraw relata o que aconteceu quando a sentença foi lida

A família Gibson estava visivelmente chocada com o tamanho da recompensa, pois, como a maioria dos presentes no tribunal, pensava que os danos punitivos finais do júri no caso seriam no máximo U$10 milhões. O fato de que foi o triplo significa de muitas formas que, talvez, o júri entendeu que o país inteiro estava assistindo.

“Nunca quisemos que isso desse em processo e tivéssemos que passar todo esse tempo em litígio”, disse David Gibson com exclusividade ao Legal Insurrection. David Gibson é o principal requerente do caso e o principal dono do negócio.

“As pessoas não têm ideia do quanto isso foi estressante para a nossa família e o nosso negócio por quase três anos. Mas, desde o começo, nós não entendíamos por que eles estavam nos punindo por algo que não fizemos”.

“Ficamos grato que o júri entendeu o que passamos, e penso que eles disseram com essa decisão para o país todo que não podemos permitir que isso aconteça a gente trabalhadora com um pequeno negócio, cuja vida, família e comunidade dependem desse negócio”, disse ele. “O que a universidade fez foi tentar tirar tudo isso de nós, e nós lutamos com toda força contra isso.”

O montante final dos danos punitivos que o júri obriga a Oberlin College a pagar é assim distribuído: U$ 17,5 milhões para David Gibson, U$ 8,75 milhões para Allyn W. “Vovô” Gibson, e U$ 6.973.500 para a padaria.

Allyn W. Gibson, 90 anos, patriarca do negócio, que funciona em Oberlin desde 1885, quis deixar claro que as pessoas entendessem que a família Gibson e seu negócio não eram contra os estudantes da Oberlin College de forma alguma.

“Passei minha vida inteira aqui e eu amo os estudantes e a energia que eles trazem para a nossa comunidade, e as pessoas que me conhecem sabem que eu sempre adoro estar perto deles”, disse ele. “Os estudantes podem ser pessoas ótimas ou eles podem ser ruins, do mesmo jeito que o resto de nós pode ser, mas eles precisam de orientação nessa idade, e não era o que estavam ganhando quando isso tudo começou”.

A família Gibson com seus advogados

Alguns dos defensores da Oberlin College alegaram que os Gibsons só fizeram isso para punir, e nunca tentaram uma solução pacífica. Mas isso não é verdade. De acordo com Lee Plakas, principal advogado dos Gibsons, uma carta foi enviada antes que a ação fosse protocolada em novembro de 2017. A carta pedia que houvesse diálogo a respeito de uma solução não litigiosa. Mas nenhuma resposta foi obtida da universidade (este repórter viu a carta).

No começo de 2018, de acordo com Plakas, dois dias de diálogo com um mediador ocorreram, mas nada próximo de um acordo foi atingido. Na verdade, as conversas foram iniciadas pela padaria e “estávamos prontos para não deixar o caso ir a julgamento, mas a Oberlin College e sua seguradora pareciam não ter qualquer interesse de fazer um acordo”, disse Plakas.

“Como fizeram durante todo o caso, pensaram que estavam acima de todo mundo, e que era indigno deles respeitar as regras ou chegar a um acordo num caso tão grave como esse, da difamação de uma boa família como são os Gibsons”, acrescentou.

O que a indenização punitiva significa é ao mesmo tempo simples e complicado, de muitas formas. Sob a lei de Ohio, indenizações punitivas têm um teto que é o dobro da indenização compensatória já concedida. Neste caso, isso significaria que os danos punitivos não poderiam ser mais que U$22,4 milhões, metade do que foi imposto sobre a Oberlin College e bem menos que os U$ 33 milhões impostos à universidade hoje pelo júri.

Porém, há exceções à legislação passada em Ohio em 2008 com respeito ao teto dos danos punitivos (ironicamente, foi passada para proteger pequenos negócios de terem que pagar indenizações enormes concedidas contra eles, não a favor deles, como neste caso), e o juiz John R. Miraldi, juiz de pequenas causas que atuou neste caso, decidirá quanto dos U$ 33 milhões serão pagos aos Gibsons.

Mas será mais que provável que o valor baixe para os U$ 22,4 milhões. Além disso, o júri disse que os honorários dos advogados que os Gibsons teriam de pagar tirando dessas indenizações (geralmente são 30% das indenizações dadas pelo júri) deveriam agora ser pagos pela Oberlin College. Esse valor pode resultar em U$ 10 milhões adicionais tirados da conta da universidade. O juiz Miraldi também decidirá isso, não o júri.

Para quem especula que esses vereditos do júri serão reduzidos substancialmente ou negados por uma corte de apelações, isso também não é especulação plausível. Sim, provavelmente haverá apelações, mas, para que uma apelação seja ganha em segunda instância, a Oberlin College teria de provar que o juiz Miraldi e o júri fizeram uma decisão desonesta e ilegal em Ohio. Para os presentes no tribnual, e para juristas observadores que sabem mais do assunto, a reversão da decisão pela via da apelação é improvável. E Miraldi foi bem cuidadoso em estabelecer um alto padrão em procedimentos probatórios.

No entanto, se o caso de fato for para a Suprema Corte de Ohio, isso aconteceria nos próximos dois anos, não na próxima década.

No fim, este caso vai ser visto como um tipo de “ponto de inflexão”. Plakas disse várias vezes ao júri que isso era maior que eles, e que eles poderiam afirmar para o país que “esse tipo de comportamento é inaceitável em qualquer comunidade, porque uma grande instituição acadêmica como a Oberlin College tem responsabilidade para com a comunidade e seus vizinhos, não só para consigo mesma”.

Plakas declarou ao Legal Insurrection o motivo pelo qual ele aceitou representar a família Gibson num caso que parecia no começo ser difícil de ganhar. “Desde o começo eu fiquei perplexo quando eu vi as primeiras cartas e emails da universidade nesse assunto, que favoreciam sua ideologia enviesada acima do que deveria ter tido alguma aparência de equilíbrio intelectual”, disse ele.

“O que a Oberlin College fez aos Gibsons foi irracional … e foi isso o que mais me irritou como pessoa, como quem viu o que estava acontecendo aos Gibsons. Seria de se esperar que uma universidade renomada, com uma longa história de sucesso neste país, não ignorasse o que consideramos um processo básico de pensamento”, continuou Plakas.

“Trabalhamos duro neste caso, estou muito orgulhoso da nossa equipe”, disse. “Mas a família Gibson foi quem trabalhou mais que todos. Eles sabiam desde o começo que a única forma de obter justiça, de restaurar o seu nome, era trabalhar duro e fazer sacrifícios. Eles tiveram que demitir trabalhadores e continuar sem receber nada. A maioria desistiria e teria fechado a padaria. Mas eles se recusaram.”

“Muitas pessoas não fariam o que eles fizeram, e o país precisa perceber que o que eles fizeram vai nos beneficiar a todos, de muitas formas, por muitos anos.”