Primeiro-ministro francês bane o miguxês “gênero-neutro” de documentos oficiais

Há uma similaridade entre a falência econômica do socialismo e os planos dos justiceiros sociais de reformar a língua: tanto a economia quanto a língua são fenômenos emergentes, extremamente complexos em seus detalhes mundanos, e recalcitrantes ao planejamento central por intelectuais sabichões.

Mas isso não significa que os engenheiros sociais estão preparados para desistir no campo da língua. O português e o espanhol seguem sendo estuprados com “x”, @ e agora também “e” no lugar das declinações de gênero. Já vimos exemplos disso em emails oficiais de universidades e provas em colégios. Na língua inglesa, a insistência dos brutamontes culturais é em usar o pronome “they” (eles) no singular para substituir “he” ou “she” – a desculpa é que até Shakespeare fez isso. Mas Shakespeare fazia isso quando se referia a alguma pessoa abstrata, não quando sabia o sexo de algum personagem. Isso nem é o pior: no Canadá é crime se recusar a usar pronomes inventados por ativistas extremos da justiça social. No Brasil, já se veem tentativas de introduzir o pronome inventado “elu”, que seria a alternativa “gênero-neutra” para “ele” e “ela”.

Na língua francesa a proposta é ainda mais tola. Na dita “escrita inclusiva” querem, introduzindo pontos, eliminar a aparente masculinidade do plural, de forma que “citoyens” (cidadãos) viraria “citoyen·ne·s” para ficar mais próximo de “cidadã”. Repito, os “·” no meio são propositais. Em outubro passado, a Académie Française alertou que a inovação representa um “perigo mortal” à língua francesa. Os franceses são notoriamente resistentes a reformar a língua. É por essa razão que, por exemplo, “Bordeaux” tem uma pronúncia tão diferente da forma como é escrita. Mas isso não é exclusividade dos franceses, os anglófonos mantêm um “k” mudo em palavras como “knight” e “knock” que há séculos era pronunciado.

Agora, o primeiro-ministro Edouard Philippe se manifestou a favor dos puristas da Académie, banindo o franco-miguxês “inclusivo” de documentos oficiais. “A [declinação] masculina é uma forma neutra que deve ser usada em termos aplicáveis às mulheres. (…) Administradores do Estado devem respeitar regras gramáticas e sintáticas, especialmente por razões de legibilidade e clareza”, declarou Philippe num memorando.

A questão se tornou nevrálgica quando uma editora resolveu usar esse miguxês em material didático para o ensino fundamental. Foi isso que provocou a fúria dos 40 “imortais” da Academia Francesa, entre os quais há críticos intelectuais da nova esquerda e do pós-modernismo como Alain Finkielkraut. Na tentativa até agora malfadada de engenharia social da língua em nome da “inclusão”, escrever-se-ia “immortels” como “immortel·le·s”.

Com informações do Telegraph.