Inveja e “Justiça Social”

Por Thomas Sowell, 4 de outubro de 1985.

A inveja costumava ser um dos sete pecados capitais. Mas agora é a principal virtude política, sob seu novo nome – “justiça social”.

O fato de que alguns grupos são pobres por causa de injustiças históricas cometidas contra eles pode ser tomado por muitos como um cheque em branco para considerar todos os grupos de menor renda como vítimas de injustiça. Em muitas partes do mundo, no entanto, os que estavam inicialmente em pobreza extrema se elevaram, ao longo das gerações, a um nível de prosperidade acima da média, através de muito esforço e sacrifício doloroso. Agora os pensadores profundos chegaram e querem redistribuir o que essas pessoas ganharam a outros que tiveram inicialmente mais sorte mas eram menos trabalhadores.

Em alguns países do Terceiro Mundo, os povos nativos se recusaram a fazer o trabalho penoso, e às vezes perigoso, de construir linhas de ferro, da mineração ou de trabalhar com a borracha, chá ou plantações de açúcar – geralmente porque tinham amplas terras férteis de sua propriedade das quais tirar o seu sustento, e assim não tinham de se sujeitar a tais provações. Pessoas menos afortunadas, tais como os coolies da China ou da Índia, foram trazidas para fazer o trabalho que os nativos desdenhavam. Isso aconteceu da Malásia e o Ceilão ao Peru, Fiji, Quênia e Uganda, entre outros lugares.

Esses chineses e indianos, acostumados a trabalhar duro numa existência dura em suas pátrias, muitas vezes respondiam às suas novas oportunidades guardando dinheiro do que pareciam meros salários de “subsistência” par aoutros, mais tarde se tornando ambulantes, donos de pequenas lojas ou fazendeiros de pequenos pedaços de terra.

O primeiro degrau para cima envolvia com frequência ainda mais trabalho longo e incessante, com pouco resultado no começo. Os lojistas chineses no Sudeste Asiático tinham fama de manter as lojas abertas até tarde. Amiúde se via uma mulher chinesa trabalhando nas plantações, com água até os joelhos, carregando um bebê atado às suas costas o tempo todo. Pequenos trabalhadores rurais indianos da África do Sul podiam ser vistos capinando suas roças à luz da Lua depois de passar o dia cuidando da fazenda e vendendo a produção de porta em porta. Histórias similares podem ser contadas sobre esses grupos em países ao redor do mundo, também sobre os libaneses da África Ocidental, e numa época sobre os judeus em vários países da Europa, do Oriente Médio ou do Hemisfério Ocidental.

Por fim – às vezes somente na segunda geração – tais grupos começaram a ascender à prosperidade. Seus negócios se expandiram e alguns de seus filhos se tornaram profissionais educados. Foi então os povos nativos passaram a ter ressentimento e inveja deles. Muito tempo depois que foi esquecido que os descaroçadores de algodão ou moinhos de arroz haviam sido construídos pelos indianos ou chineses, os políticos e intelectuais denunciaram o fato de que esses grupos haviam “tomado controle” dos descaroçadores de algodão, moinhos de arroz ou outros bens patrimoniais do país, usando-os para “explorar” o povo. O fato de que muitos produtos e serviços foram primeiro postos ao alcance da população local por essas minorias é ignorado.

E não é apenas o povo local que fala assim. Pensadores profundos em remotas universidades americanas escrevem solenemente sobre as “desigualdades” de renda na Malásia, onde os chineses ganham o dobro do que ganham os malaios. Como consultores, eles podem até inventar esquemas para “corrigir” tais “desigualdades” em nome da “justiça social”.

Políticos locais vão ainda mais longe. Eles até já expulsaram vários grupos que tiveram papeis importantes no desenvolvimento de sua economia. Os 50 mil indianos expulsos de Uganda por Idi Amin são o exemplo atual mais dramático, mas a história está cheia de expulsões similares de judeus de vários países da Europa e de chineses de países da Ásia.

Até onde os grupos mais produtivos não são diretamente expulsos, as condições podem ser tão dificultadas para eles que resultam em fuga em massa de refugiados. Os exemplos recentes mais clássicos disso foram as “pessoas de barco” do Vietnã – a maioria das quais eram chinesas. Os ibos da Nigéria nos anos 1960 e os armênios na Turquia durante a I Guerra Mundial foram ambos massacrados nas ruas antes que os sobreviventes pudessem fugir.

Já passou da hora de devolver à inveja o seu antigo papel como um dos sete pecados capitais. Ao menos podemos parar de chamá-la de “justiça social”.