Entrevista com Nazirah Obaluaê

Ela é a nova estrela ascendente no cenário atual da discussão nacional acerca das opressões e microagressões sofridas por minorias étnicas, etarismo, questões de gênero e sexualidade, gordofobia e islamofobia. Apesar de preferir ser tratada por pronomes e adjetivos femininos, Nazirah se identifica como uma pessoa não-binária e de sexualidade fluida e borrada, assumindo livremente combinações diversas de facetas volúveis em um espectro queer. Aos 93 anos, é a mais velha das ativistas sociais do Brasil, fazendo questão de ressaltar que tem muita saúde com seus 204kg de corpo preto, cuja infância se passou em um quilombo.

A revista digital Terceiro Mundo conseguiu entrevista exclusiva com a nova musa dos DCEs, que segue abaixo, na íntegra, por Thadeu Maracatuaba.

TM — Boa tarde, Nazirah, é um prazer tê-la aqui conosco hoje. Para começar, diga aos nossos leitores qual a sua vivência ativista e o que espera para este ano.

NaObaSalaam Aleikum, Thadeu. Eu tive uma infância carente e sofrida, mas lutei muito para conseguir ingressar num curso de BI numa Federal, que infelizmente tranquei para dedicar este ano ao ativismo. Foi lá que, através da educação libertadora que me forneceu pensamento crítico, tomei consciência de classe e percebi a miríade de grilhões que me acorrentava a pesos sociais. Ingressei nos coletivos apropriados para minha condição social de pessoa não-binária, preta, velha, gorda e muçulmana, cada qual adicionando camadas extras de sofrimento e opressão.

Para este ano eu planejo publicar diversas ponderações textuais extensas em redes sociais, participar de cirandas cu-artísticas e promover a desconstrução de paradigmas biopsicossociais misóginos lesbotransbifóbicos cis-hétero-normativos brancos imperialistas islamofóbicos coloniais. E com minha bolsa garantida em um projeto de Iniciação Científica em Perspectiva Queer da Culinária Afro nas Comunidades Ribeirinhas do Alto Tietê, relaxar viajando, nem sempre de ônibus, carro ou avião. Se bem que acho que vou precisar dos aviõezinhos… E, claro, viajando de bicicleta.

TM — Então seu ativismo é recente, apesar de sua vivência?

NaOba — Não exatamente, porque o tempo é relativo. Precisamos desconstruir esta noção patriarcal colonialista de um tempo mecanicista absoluto, cenário cronológico dos eventos. O tempo é evento, não mero cenário, e é elástico, variando conforme as subjetividades dos referenciais, posicionados em relação a suas medidas de acordo com as diretrizes e recomendações de seus respectivos Diretórios ou CA ou coletivo.

Então é evidente que a (re)existência da comunidade LgBTQIAPK preta muçulmana encontra suporte ancorado no tempo-fluido da metanarrativa einsteniana, corrigida pela equação espacial do lugar de fala das manas e monas. Portanto minha militância é recente apenas de um ponto de vista eurocêntrico cronologicista, uma forma sutil de estupro temporal promovido pelas elites brancas que dominam o país através de um pacto midiático encabeçado pela Globo.

TM — Calma que eu me perdi aqui com este cientificismo todo. Você é conhecida por suas ligações com o misticismo, explique-nos isso. 

NaOba — Logo após as palestras de conscientização social na recepção dos ingressantes, mas pouco antes das calouradas, fui apresentada a um guru indiano especialista em regressão hipnótica, Lawandha Navarandha. Foi com ele que me descobri a reencarnação de uma mulher islâmica egípcia chamada Nazeerah Farah al Jeeza, a terceira esposa de um comerciante de tapetes da região.

Sabendo que minha alma residia na África, viajei ao Espírito Santo com um boy-magia até um quilombo, em cujo terreiro foi-me revelado que sou filha de Obaluaê. Apesar de muçulmana, concilio sem problemas minha fé com os trabalhos, sob orientação de Mãe Zinguinha de Oxum.

Navarandha também me iniciou nos mistérios da Cabala Budista durante uma trilha que fizemos em Jundiaí. Depois compramos morangos em Atibaia, nos certificando de que eram orgânicos e oriundos de permacultura hidropônica e regados com água desmagnetizada.

TM — Então você também é vegetariana?

NaOba — Na verdade não, porque eu não posso restringir minha dieta enquanto milito no Coletivo Balé-eiro, que aponta as iniquidades impostas às pessoas com sobrepeso, que não são aceitas na sociedade e são muito discriminadas, inclusive pelos agentes de saúde.

TM — Conte-nos sobre sua militância quanto à causa etarista. É verdade que nossa sociedade discrimina pessoas idosas?

NaOba — Sim! E “idoso” é uma microagressão, porque implica que a pessoa “já foi”, já que etimologicamente idoso é o que se diz daquele que já foi, que tem ido, “ido-so”. Em vez disso, diga “experiente”.

Eu me descobri experiente através de um teste de “qual a sua idade mental?” em minha TL, no ano passado. O resultado foi “você tem 43 anos de idade mental“, me tornando a militante mais experiente do país.

TM — Mas diz aqui na sua ficha que tem 93 anos, não deveria ser 44, já que fez o teste no ano passado?

NaOba — O tempo é relativo, já discutimos isso. Tinha de ser hétero… Vaza macho!

TM — Quanto à sua infância em um quilombo, qual quilombo, exatamente? Aquele lá no ES, mencionado anteriormente?

NaOba — Sim, aquele mesmo! Lindo lugar, repleto de gente simples e alegre. Não lembro bem o nome nem onde fica, estava bêbada e só fui uma vez. Mas renasci ali, portanto é onde passei minha infância.

TM — Quanto ao islamismo, você é sunita ou xiita?

NaOba — Esta é uma questão complicada, porque estas designações foram impostas por colonizadores europeus, que causaram propositalmente divisões em um povo pacífico, a fim de dominá-lo e explorá-lo. A tradição muçulmana é de união e paz e não há vertentes ou seitas, divergências, mas um espectro contínuo e multifacetado de inter-pretação (preta-ação) do Corão.

TM — Bem, é que na verdade estas distinções são basais na tradição muçulmana e tem a ver com a sucessão do Profeta, o assassinato de Ali e afins. Quando os europeus tiveram o primeiro contato com os muçulmanos já havia umas três ou quatro grandes divisões internas… 

NaOba — Ah, então, sou daquela vertente que pode beber e dar o cu, qual o nome?

TM — Sobre o curso trancado na Federal, soube que se transferiu para um BI em Humanas, mas que anteriormente cursava Engenharia. O que motivou esta guinada na carreira acadêmica?

NaOba — A revelação de minha vida passada como uma mulher muçulmana e o fato de eu ser filha de Obaluaê tornaram minha identidade incompatível com a Engenharia. Veja bem, com alma africana eu tenho de representar o povo preto, cujos saberes são ligados ao corpo, às danças e à música. O raciocínio matemático é de um tipo estranho aos africanos, não faz parte de seus conheceres, portanto incompatível à minha alma negra.

As múltiplas inteligências femininas também não são aquelas pretensamente estimadas pelo QI, mas a inteligência verbal, a inteligência emocional, a interpessoal. O estudo da mecânica dos sólidos é uma ode ao falo masculino (enquanto oprime os irmãos trans, que carecem deste opulento falo masculino), que marginaliza o falo feminino de nossas irmãs, as mulheres trans não operadas.

TM — Basta! Você não acha que desrespeita todos estes grupos de pessoas pelas quais diz se importar e ter empatia? Que ridiculariza as pessoas utilizando de estereótipos imprecisos e não representativos daquelas pessoas e, aliás, impróprios para qualquer ser humano?

NaOba — Não, porque a enorme maioria de tudo o que eu disse se ouve em coletivos, CAs e DCEs, em encontros nacionais dos estudantes de qualquer coisa. Se ouve em classe, da boca de alguns professores. Se lê em livros, em redes sociais: basta procurar no Google. Se eu ridicularizo as pessoas? Claro que não, ou os coletivos, CAs, DCEs e até partidos políticos seriam acusados da mesma coisa que eu.

Nota do Entrevistador: à minha frente estava um moço franzino de ascendência oriental, em cujo RG constava o nome Roberto Shironaga Collassanti, aparentando ter não mais de 20 anos, 30 pelinhos ralos no rosto e 50kg, mas que se identificava como Nazirah Obaluaê.

 

[Os nomes de pessoas, locais, instituições, grupos e projetos são — ou deveriam ser — fictícios e não se referem a entidades reais. Qualquer semelhança com a realidade é intencional, quem dera fosse mera coincidência]

NYX