Aceitamos Dinheiro “Imperialista”: Parte 2 — George Soros e Open Society Foundations

A Open Society Foundations, conhecida como Open Society Institute (Instituto da Sociedade Aberta, referência a um livro de Karl Popper — mais a respeito a seguir) de sua fundação em 1993 até 2010, foi fundada pelo bilionário húngaro-americano George Soros, que fez fortuna no mercado financeiro nos Estados Unidos. A personalidade do fundador se confunde com frequência com a OSF, e a aplicação dos fundos bilionários doados por Soros à OSF jamais vai contra as opiniões dele (dificilmente é o caso da Fundação Ford, que contraria os ideais de seus fundadores).

É acusada de ser uma das entidades filantrópicas menos transparentes do mundo, e é odiada pelos mais ferrenhos inimigos da esquerda por financiar diversas entidades ativistas de esquerda ao redor do mundo. 37 países têm tentáculos oficiais da OSF, que apesar da data oficial de início resulta de atividades de Soros que datam de 1984. O governo atual da Hungria usou a imolação publicitária da imagem de Soros com sucesso em sua campanha eleitoral, e implementou políticas que forçaram a OSF a transferir seu escritório da Hungria para a Alemanha neste ano.

Inúmeras denunciações de Soros e da OSF já foram feitas. Aqui, consideraremos criticamente não só a OSF e Soros, mas também as críticas mais frequentes a ambos, levando em conta as questões mais amplas possíveis. Primeiro, apresentaremos alguns números sobre a atuação da OSF no Brasil.

A OSF tem uma divisão dedicada à América Latina e ao Caribe, e tem um diretor brasileiro para a região da América Latina, Pedro Abramovay. O viés político da OSF é exemplificado no tipo de coisa que Abramovay diz no Twitter, como a participação dele numa campanha autoritária para proibir o McDonald’s de ter brinquedos no McLanche Feliz — que ele compara ao lendário tráfico de drogas ilegais via doces.

OSF alega basear seus valores na obra do liberal Karl Popper, mas tem diretores como Pedro Abramovay, que se envolvem em projetos antiliberais da esquerda como este.

Ao contrário da Fundação Ford, a OSF dá informações muito limitadas cronologicamente sobre suas atividades. No site oficial, oferece apenas os dados das doações que fez em 2016 e 2017. Coincidentemente ou não, somente dados contemporâneos ou posteriores à data de vazamento de informações da organização por um grupo chamado DC Leaks, que a inteligência americana alega que é um grupo de hackers russos. Desde então o site do grupo saiu do ar.

A divisão da América Latina e Caribe da OSF aplicou quase 37 milhões de dólares neste período na região. Cerca de um quarto desse valor foi aplicado no Brasil. Não damos precisão neste valor porque tivemos de adivinhar o país pelo nome de cada organização recebedora da doação, pois a OSF não dá essa informação diretamente. A primeira conclusão aqui é que a Fundação Ford dá bem mais dinheiro para organizações no Brasil, pois aplicou mais de 23 milhões de dólares no país no mesmo período 2016-2017. As reclamações de alguns ativistas conservadores/libertários contra George Soros no Brasil, portanto, são exageradas se eles não oferecem mais resistência e reclamação à Fundação Ford que à OSF. Se é assim, não é só a esquerda justiceira social que importa discurso pronto e memes histéricos dos americanos. Como se vê no gráfico, a atuação da OSF no Brasil é diversificada, e os vieses vão se revelando nos detalhes.

Áreas de interesse da Open Society Foundations no Brasil. “Ativismo genérico” é o focado em direitos humanos ou ONG’s que agrupam causas identitárias diversas. Exemplos: Quebrando o Tabu, Anistia Internacional Brasil, IDDD. Em “Segurança” temos ONG’s como Instituto Sou da Paz, Instituto Igarapé e Coletivo Papo Reto. Em “outros” agrupamos causas diferentes com menos expressão, como direito do consumidor e a fundação do FHC. Geledés e Anis são dois exemplos de organizações feministas. Na categoria “comunicação” está a Agência Pública, uma agência de checagem de fatos acusada de viés esquerdista. Nas últimas duas categorias há só uma ONG em cada uma: Coletivo de Entidades Negras no “racialismo” e Instituto Clima e Sociedade em “clima”.

Uma das coisas mais notórias dos projetos políticos de George Soros é o seu repetido fracasso. Apesar de todos os milhões dados por Soros à candidatura de Hillary Clinton, os eleitores americanos — quer dizer, os eleitores colegiados americanos — preferiram Donald Trump. Apesar dos milhões de Soros, os britânicos, por sua vez, votaram por sair da União Europeia.

Um pensador que pode acalmar o alarmismo conspiracionista de alguns conservadores e liberais sobre a influência de Soros é o conservador e liberal Thomas Sowell, em sua tese sobre o conflito de visões. Para Sowell, as divisões políticas que observamos no ocidente, especialmente a dicotomia esquerda vs. direita, são explicadas por duas grandes atitudes ou dois grandes conjuntos de opiniões correlacionadas. Um conjunto é formado pelos “ungidos”: o grupo de pessoas que dão confiança a grandes projetos de engenharia social e simpatizam com intelectuais que os propõem. “Ungidos” porque para fazer ou apoiar esse tipo de projeto é preciso acreditar numa unção intelectual contra o ceticismo e a resistência das massas, sem contar na relutância delas a aderir a esses projetos apesar de todas as suas alegadas boas intenções e repetidos argumentos.

Um argumento contra essa atitude dos ungidos é o de Friedrich Hayek contra o planejamento central das economias: acreditar que é possível fazer esse tipo de planejamento melhor que o conjunto das pessoas que fazem girar a máquina econômica com suas pequenas decisões de consumo e comércio é pura arrogância de intelectuais, e uma arrogância destinada ao fracasso. As pessoas comuns podem ser menos inteligentes que um economista pós-doutor, mas em conjunto elas detêm informações pragmáticas que ele não tem e tomam coletivamente decisões mais sábias do que ele tomaria. É por isso que elas devem ter liberdades para tomar essas decisões e a recomendação dos liberais é que o Estado simplesmente saia da frente tanto quanto possível e só interfira para manter esse espaço competitivo para que essas decisões continuem livres e não sejam distorcidas por monopólios e oligopólios. O fato de que a OSF segue a visão ungida mostra que o livro que levou a seu nome, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, do filósofo Karl Popper (que concorda com Hayek), foi mal compreendido pela organização e por seu patrono George Soros, que na verdade engrossam as fileiras dos inimigos da tal sociedade aberta ideal com indivíduos livres.

O outro grupo na teoria de Sowell é o grupo dos “incultos”: aquelas pessoas que desconfiam dos intelectuais e confiam na sabedoria acumulada do senso comum. São essas pessoas que tendem à histeria ao ver uma única pessoa, George Soros, usando de seu poder econômico para influenciar países inteiros a decidirem conforme o que ele quer. E com certa frequência erram em avaliar corretamente quanto poder Soros e a Open Society Foundations realmente têm no ocidente (é verdade que em alguns países com instituições extremamente frágeis o dinheiro de Soros chega a criar um governo paralelo atuando nas sombras). Quanto mais livres são as pessoas para decidirem seus rumos coletivamente, mais saudável fica a resposta inculta à investida ungida. E isso vale não só para economia, mas também para as relações sociais entre raças, sexualidades e sexos que os ungidos tomaram como alvo de sua investida depois do fracasso intelectual e prático do marxismo. Aqui, o termo “inculto” não é um xingamento, mas uma descrição desinteressada de um grande grupo (tanto que o próprio Sowell se encaixaria mais aqui do que no grupo dos “ungidos”).

Uma das principais diferenças entre ungidos incultos são as ideias de cada grupo sobre a natureza humana. Para os incultos, humanos são seres intrinsecamente defeituosos, com uma tendência à imoralidade, que nascem destituídos de várias capacidades fundamentais que só podem ser incutidas neles por instituições e tradições importantes que devem ser defendidas contra o ataque dos ungidos. Para os ungidos, a natureza humana tende à bondade e à maleabilidade (para afirmar essa maleabilidade, muitos negam que existe natureza humana, como faz o ungido Sartre); e as pessoas seguiriam os planos de engenharia social se não fossem amarradas por várias construções sociais míopes ou malévolas mantidas por incultos.

Perceba, no entanto, que os ungidos incultos de Sowell não se mapeiam perfeitamente à esquerda para os primeiros e à direita para os últimos, como pode parecer à primeira vista. O liberalismo, por exemplo, agrupa intuições tanto de ungidos quanto de incultos. Os planos reformistas no campo da educação do economista liberal Bryan Caplan, por exemplo, são coisa de ungido, enquanto o próprio Caplan tem outras opiniões que ressoam com o campo inculto. Não é surpresa, pois Caplan não é um intelectual que sofre da doença do tribalismo político, suas opiniões sobre diversos assuntos variam em grau de esperança de reformas sociais ou conformidade com o senso comum. Sowell preferiu essa classificação, que é uma teoria em filosofia política, justamente por causa das insuficiências explicativas da dicotomia esquerda-direita. Nesse assunto, Sowell acredita que a esquerda é o grupo que existe e é facilmente identificável, enquanto a direita é um balaio de gatos artificial criado por todos os grupos díspares e dissonantes (de juntas militares autoritárias a libertários) que a esquerda xinga de “direita”. Como é comum, às vezes os xingados adotam os xingamentos como marca de identidade tribal.

A teoria de Sowell ilumina a questão porque ajuda a entender que mesmo que um bilionário ungido e sua fundação financiem causas diversas ao redor do mundo, o resultado mais provável desse financiamento a longo prazo é inflamar os ânimos dos incultos contra ungidos, não resolver problemas sociais ou concretamente mudar a sociedade. Quem realmente se importa com eficácia do dinheiro em causas inegavelmente justas procura conselhos de grupos como o Altruísmo Eficaz, não procura gastar com entidades politicamente alinhadas consigo mesmo e inflamar a polarização política. Portanto, não importa o quanto Soros gaste apoiando a dita esquerda progressista, a maior parte do esforço, se não todo, é em vão.

 


Fontes

  • Wikipédia em inglês.
  • Open Society Foundations. Grants Database 2016-2017. Acesso em julho de 2018. Disponível aqui.
  • Popper, K. (2012). The open society and its enemies. Routledge.
  • Sowell, T. (2007). A conflict of visions: Ideological origins of political struggles. Basic Books.