Aceitamos Dinheiro “Imperialista”: Organizações Estrangeiras que Financiam Ativismo no Brasil: Parte 1 — Fundação Ford

Você provavelmente já viu alguns conservadores reclamando, geralmente em tom conspiracionista (olavetes, estamos olhando para vocês e seus chapeuzinhos de folha de alumínio), do financiamento do radicalismo ativista no Brasil por parte de organizações estrangeiras, ou por parte de pessoas específicas como George Soros. Fomos atrás dos dados e publicaremos nossas conclusões em três partes. Começaremos com a Fundação Ford, depois exploraremos a Open Society Foundations e a Fundação MacArthur.

Parte 1 — Fundação Ford

A Fundação Ford foi criada pelo magnata dos automóveis Henry Ford, junto a seu filho Edsel,  em 1936. Uma das maiores entidades filantrópicas do planeta, a FF tem dez escritórios espalhados pelo mundo, além de uma sede americana. Desde que a fundação vendeu suas ações da empresa de automóveis homônima décadas atrás, não está muito claro de onde ela obtém fundos. A aplicação desses fundos mudou radicalmente desde o início, com a política identitária, orientada por uma doutrina multiculturalista da nova esquerda, ocupando uma proporção cada vez maior do orçamento especialmente após a década de 1960.

Segundo dados disponíveis em seu próprio site, entre 2006 e o primeiro semestre de 2018 a Fundação Ford deu um total de 157 milhões 816 mil e 185 dólares a entidades brasileiras ou que atuam no Brasil. O apoio vai para várias causas e diferentes entidades, de universidades a organizações não-governamentais e até algumas organizações do governo.

O gráfico abaixo mostra quanto de parte desse dinheiro foi investido em diferentes modalidades de ativismo.

Note que os números no gráfico resultam da nossa classificação de várias organizações que receberam dinheiro da FF em categorias de ativismo “genérico” (direitos humanos ou várias causas identitárias juntas) ou específico com base em seus nomes e descrições. Os 4,1 milhões de dólares dedicados ao racialismo, por exemplo, provavelmente são uma subestimativa, pois excluem o dinheiro que a FF dá para universidades provavelmente em troca da implantação de cotas raciais. Essa compra de cotas raciais é uma atividade da FF que teve início em 1989 com a oferta de verbas de 100 mil dólares a universidades americanas que implantassem benefícios com base em raça. É literalmente um suborno em nome da “justiça social” e é difícil que não tenha acontecido no Brasil.

No mesmo período 2006-2018, a Fundação Ford deu 29,4 milhões de dólares a universidades e entidades acadêmicas no Brasil.

A Fundação Ford pode ser apontada como uma das principais responsáveis pela importação acadêmica da dicotomia negro/branco da política racializada americana para a brasileira. Segundo o sociólogo Demétrio Magnoli, desde a fundação de um escritório no Brasil até o ano de 2001 a FF investiu 347 milhões de dólares (ajustados para inflação) no país. Qualquer esquerdista com alguma coerência chamaria essa influência capitalista e cultural no país de imperialismo. Como não vem de uma tribo política adversária, é visto com normalidade.

É curiosíssimo que ativistas de esquerda aceitem dinheiro da Fundação Ford, que foi, como disse Magnoli no livro Uma Gota de Sangue, “um tentáculo oculto da política externa americana” durante a Guerra Fria. Uma entidade usada para promover o capitalismo e derrubar o comunismo no mundo, mas que hoje é uma das principais financiadoras de ativismo esquerdista. A História pode ser pobre em justiça, mas não é pobre em ironias. Nem em incoerências: a mesma tribo política que prega a rememoração obsessiva da História, sem qualquer sinal de perdão, na derrubada de estátuas de confederados americanos e arquitetos do Apartheid na África do Sul, se esquece muito rápido de outra parte bem mais recente da História na hora de encher os bolsos com o que sobrou do projeto filantrópico do capitalista antissemita Henry Ford. E, neste caso, em troca de dólares há uma abundância do perdão que é negado à tribo imaginária dos homens brancos cis héteros, escolhidos pela extrema esquerda identitária como encarnação de demônios na Terra.

A Lava Jato mostrou que empresas como JBS e Odebrecht essencialmente compravam políticos com doação de campanhas e propinas, e que o grosso desse dinheiro vinha de estatais controladas por esses políticos. Não se podia confiar nesses políticos para, por exemplo, fiscalizar essas empresas em nome de vários interesses públicos como a qualidade dos prédios construídos ou o licenciamento ambiental.

Muitos militantes do ambientalismo reclamaram de como os governos Lula e Dilma cooptaram os ativistas. O problema dessa cooptação é que os ativistas deixam de ficar do lado de suas causas quando elas conflitam com os interesses do governo. Certamente o mesmo acontece quando ativistas recebem dinheiro de entidades estrangeiras que também têm seus interesses próprios.

Mesmo que descontemos interesses das entidades estrangeiras, permanece o problema perpétuo do dinheiro no ativismo: para continuar recebendo o dinheiro, os ativistas desonestos perdem interesse na verdade sobre o real estado dos problemas dos quais tratam, e se tornam uma manada de Datenas exagerando e acalentando o sensacionalismo que enche os seus bolsos.

Não se pode confiar em ativistas comprados pela Fundação Ford, Fundação MacArthur e Open Society Foundations pois essas organizações premiam a hipérbole sobre o real estado dos grupos que essas organizações tentam proteger. Esses ativistas não têm incentivo algum para seguir as evidências se elas sugerirem que as coisas não são tão ruins assim e que, em hipótese, por exemplo, o Brasil precisaria de mais dinheiro em saneamento básico do que no combate ao racismo. Os dois problemas não parecem de pronto comparáveis, mas devemos sempre lembrar que, mesmo abundante, o dinheiro é finito e essas fundações precisam fazer escolhas que envolvem tirar de um área para investir em outra.

É caro demais fiscalizar o trabalho dos ativistas. Provavelmente ninguém nessas fundações é empregado para investigar, por exemplo, se o Geledés — Instituto da Mulher Negra (que é ao mesmo tempo racialista e feminista, mas classificamos como feminista) está realmente combatendo o racismo ou piorando o racismo ao insistir em política identitária e publicar textos radicais, que é exatamente o que essa organização faz. E ninguém vai encher os bolsos se investigar o problema e concluir que ele não é tão grave ao ponto de precisar de dólares internacionais. Vira um jogo de fingimento: os ativistas fingem que estão em situação de guerra e realmente solucionando problemas, e os magnatas dessas fundações filantrópicas fingem que sabem que estão realmente fazendo um bem à humanidade enchendo os bolsos dos ativistas.

Henry Ford II, neto de Henry Ford que presidiu a FF nos anos 1940 e depois disso permaneceu quase 30 anos como seu curador, morreu desgostoso com os rumos da fundação.

Mais alguns fatos rápidos sobre o dinheiro da Fundação Ford no Brasil no período 2006-2018:

  • Não se pode dizer que o dinheiro só financia ativistas, e entre os ativistas os justiceiros sociais que estão tomando o ativismo cada vez mais. A FF deu 4,9 milhões de dólares a entidades que lidam com medicina, da pesquisa a campanhas contra AIDS. Entre os ativistas que receberam dinheiro da FF, alguns certamente fazem um bom trabalho. Fica a critério do leitor avaliar a qualidade geral do ativismo no Brasil: nossa opinião, por causa da base pós-moderna e multiculturalista por trás dessa verba, é evidentemente negativa.
  • Mais viés evidente: a única editora financiada pela FF no Brasil neste período é a petista Boitempo Editorial, que recebeu quase 90 mil dólares.
  • Lucro rápido: duas organizações muitíssimo novas receberam dinheiro da FF apesar de terem menos de 3 anos de idade: a Gênero e Número, que promete sair da histeria justiceira social para analisar dados frios (não cumpre a promessa, é só mais um coletivo feminista), ganhou 200 mil dólares; já a Silo, que parece uma ONG bizarrinha de feministas que vão fazer arte na roça, foi fundada em 2017 e já faturou 100 mil dólares. Está desempregado, quebrado? Venha para a lucrativa “justiça social”!
  • Como uma das beneficiárias se descreve: “O Instituto Eqüit está empenhado em contribuir com a transformação das relações sociais, focalizando as relações de gênero a partir de uma visão feminista, que visa a construção da cidadania das mulheres privilegiando a democracia e os direitos humanos em detrimento da lógica de mercado.” Não diga. As ideias parecem produzidas numa máquina de salsicha, todas iguais. Seria um fordismo de ideias?
  • Excluímos da categoria “racialismo” as entidades dedicadas a indígenas e quilombolas, que juntas receberam 8,5 milhões de dólares. Para mais detalhes, fiquem à vontade para nos fazer perguntas nos comentários ou no Twitter. Poderemos fazer mais tarde um web app para facilitar o entendimento dos dados e de como os analisamos.

Fontes

Ford Foundation. Grantees 2006-2018. Acesso em julho de 2018. Disponível aqui.

Magnoli, D. (2015). Uma gota de sangue: história do pensamento racial. Editora Contexto. pp. 87-103.