Declarar-se contra o preconceito é engajamento político para preguiçosos

Nas redes sociais muitas pessoas de repente descobriram que são contra o preconceito, contra o estupro, contra o assassinato e contra esmagar gatinhos com tijolos. Parabéns para elas. Onde estão os seus adversários políticos?

A primeira coisa que isso mostra é que provavelmente essas pessoas fazem um espantalho dos adversários políticos, já que não há um grupo substancial de pessoas na sociedade que seja a favor de qualquer uma dessas coisas. Se a sua declaração de bom-mocismo não é para se opor a um grupo real e não-negligenciável de adversários políticos, para que ela serve? Serve para posar de boa pessoa na frente de uma plateia imaginária, oras. Quando acumulam certo número de amigos e seguidores no Facebook ou no Twitter, essas pessoas passam a acreditar naquele número e agir como se estivessem diante de uma plateia que dará notas para cada um de seus mínimos movimentos. Declarar-se contra machadadas em bebês-focas é uma forma rápida de parecer boa gente, de ganhar a disputada aprovação. Chamemos essas pessoas de “minimalistas éticas”: o pensamento que precisam empregar fazendo propaganda de si mesmas como contra o preconceito nas redes sociais é mínimo.

Os minimalistas éticos caíram de paraquedas num assunto em que proclamações assim deixam muita coisa importante de fora. Por exemplo, quando se pede que expliquem o que é preconceito, a palavra “estereótipo” está fadada a aparecer. O problema de sinonimizar preconceito a estereótipo e estereótipo a uma coisa ruim é que, como se sabe na psicologia científicaestereótipos acertam mais do que erram, são estatísticas intuitivas que as pessoas têm, baseadas em fatos. “Ah!” – protesta o minimalista ético – “mas devemos julgar as pessoas como indivíduos!” Não diga, Sherlock. Pois as pesquisas também já sabem que as pessoas, quando têm informações sobre um indivíduo, preferem essas informações à previsão do estereótipo sobre o indivíduo em questão. Imagine só, as pessoas comuns que você representa como cérebros-de-ervilha preconceituosos são racionais, e reagem a novas informações como se esperaria de seres racionais.

Como o minimalismo ético é baseado em reagir a adversários políticos que ou não existem ou não são organizados, ele não é, propriamente, engajamento político, pois consiste em repetir o óbvio, como pokémons repetem o próprio nome, sem pensar; e porque não leva a nada de concreto a não ser uma sociedade mais histérica, mais hipersensível a qualquer mínima informação que se encaixe no bicho-papão contra o qual lutam. É, essencialmente, pseudoengajamento político para preguiçosos que não entendem e têm preguiça de entender questões políticas mais prementes como os efeitos (previstos e inesperados) de políticas econômicas e até de leis que o próprio minimalismo ético ajudou a aprovar com o nível de reflexão de uma patela.

São contra o preconceito? Não digam… em breve serão capazes de limpar a própria bunda.