Bizarra Palmitagem

O conceito de palmitagem é bizarro na essência.

O termo, exposto diversas vezes na AJS, remete a uma suposta preferência de homens negros por mulheres brancas, o que colocaria as negras em desvantagem, causando o já desmascarado, também pela AJS, efeito de ‘solidão da mulher negra’.

Dito isso, é interessante ressaltar que ao longo dos últimos anos, diversas ‘mentes pensantes’ do feminismo negro manifestaram-se através de textos racistas e raivosos no meio virtual. Um destes textos que consolida bem a visão racista do movimento negro feminista e vitimista, pode ser visto aqui.

A autora, a araraquarense Stephanie Ribeiro, uma mestiça caracterizada por traços negros e europeus, denuncia o que chama de ‘palmitagem’ e suas implicações sobre a vida de mulheres negras.

Outras ativistas de influência, como Djamila Ribeiro, também se manifestaram sobre o tema, dando espinhadas nos ‘palmiteiros’ (homens negros que se relacionam com mulheres brancas) em diversos momentos nos últimos anos.

No mundo virtual, o relacionamento de Taís Araujo e Lázaro Ramos foi inclusive eleito como o exemplo a ser seguido pelos solidários pares negros.

Mas, por hora, guardemos esses detalhes para depois.

Ontém, descobri uma publicação no Facebook (tabém disponível em https://medium.com/revista-subjetiva/responsabilidade-afetiva-x-amor-preto-as-exclus%C3%B5es-que-se-repetem-1a653e599eb3). O texto escrito pela ativista Joice Berth é mais um produto da inconstância desses movimentos identitários.

O conceito de palmitagem foi expandido, ganhou novos contornos e deixou tudo ainda mais bizarro do que já era.

No texto de Berth, a crítica não se volta mais para os homens que se relacionam com brancas, mas para os homens negros que se relacionam com negras que não são tão negras quanto a autora gostaria que fossem.

A famosa mulata, que até aqui fora defendida como negra, se transforma em “negra de pele clara” (sic).

Negra de pele clara!

De acordo com a autora, a absolutamente minoritária parcela de negras de pele bem escura está sendo preterida frente às negras de pele clara! Lázaro Ramos e Taís Araujo foram incluídos no balaio. Djamila Ribeiro apoiou a idéia. Tudo ganhou contornos bem interessantes.

O texto faz afirmações como:

 

“… AFROCENTRAR” é e tem sido majoritariamente para mulheres negras de pele clara, com características negras ~suavizadas~ pela miscigenação como lábios mais finos e cabelos cacheados, ou seja, mulheres negras estilo Beyoncé,Taís Araújo, Sheron Menezes… 

Para além da sexualização que essas negras recebem pelo estereótipo da “mulata exportação”, elas são a preferência absoluta quando homens negros resolvem agradar a militância e/ou fazer o radical para a branquitude exquerdista.”

O que fica evidente é que o conceito foi expandido.

As pardas ou mulatas, que tiveram sua classificação reduzida a ‘negra de pele clara’, se tornaram o alvo da vez. Ativistas, como Stephanie Ribeiro, que redigiram textos no tema e defenderam o conceito de ‘solidão da mulher negra’, agora são os alvos da vez: negra, pele mais clara, cabelos cacheados, lábios finos, queixo italiano…Que ironia!

Acima a ativista Stephanie Ribeiro e seu namorado. Abaixo Taís Araujo e Lazaro Ramos. Ambos casais com perfis bem semelhantes. Fonte: Facebook.

Claro que rachas e divergências em um movimento baseado em subjetividade e inconsistência eram esperados, mas a surpresa não poderia ser menor.

Ver que atacantes tenham se tornado alvo, mostra o como tudo isso é perigoso e sem sentido, mas para mim continua sendo bem divertido ver no que o movimento negro está se tornando, um reprodutor de um mini apartheid à lá Brasileira, que inclui agora subclassificações, coisas que dariam pequenos orgasmos em Hendrik Verwoerd.

Por hora, deixo uma sugestão de texto para Stephanie, basta ela seguir o trecho escrito por Joice Berth no Facebook:

O colorismo, o amor preto, a responsabilidade afetiva também deveria discutir a omissão de mulheres negras de pele clara frente as escolhas que as envolvem. 

Assim como as mulheres brancas não querem questionar o racismo e sexismo de seus companheiros que delimitam a escolha deles por elas, as mulheres negras de pele clara també se recusam a romper o silêncio sobre os favorecimentos que sua aparência proporciona no amor afrocentrado. 

Parafraseando bell hooks, esses pontos cegos precisam ser colocados a frente das selfies de casais felizes, afrocentrados ou não.

Abaixo, print do post original da ativista Joice Berth (apenas para referência):

Djamila Ribeiro corrobora as posições adotadas pela ativista Joice Berth:

E já inventaram até o micro-privilégio da “negra de pele mais clara”:

 

 

 Chernobyl