Moralistas alterando obras, dos religiosos aos justiceiros sociais, 1565-2018

Mudam os idiotas que se julgam detentores da cultura e têm poder suficiente para empurrar suas regras goela abaixo no resto da sociedade. Só não muda o fato de que geralmente são medíocres incapazes de criar qualquer coisa que chegue aos pés do que tentam censurar. Abaixo, selecionamos alguns casos notórios de censura ou tentativa de censura de obras classificáveis como arte ou obras intelectuais, terminando com um caso recente. Deixamos de lado obras proibidas e nos focamos em alterações safadas. Uma omissão pela qual já peço desculpas: letras de música alteradas pela ditadura militar no Brasil.

Nem a Capela Sistina escapou: vista os pelados!

Em 1565, sob ordens do Papa, Daniele da Volterra, um pupilo de Michelangelo, fez retoques no afresco “O Juízo Final” da Capela Sistina, adicionando tecidos sobre as vergonhas de alguns dos pelados originalmente feitos assim pelo mestre imortal. Isso lhe rendeu o apelido eterno de braghettone, que significa algo como “cuequeiro”.

 

O Photoshop de Stálin

O ditador comunista Josef Stálin matou mais que Hitler. Até antigos aliados próximos estavam entre suas vítimas. Após matar seu antigo colaborador Nikolai Yezhov, Stálin tratou de tentar apagá-lo de fotos. Não basta extinguir uma vida, é preciso apagar a sua existência da memória.

Alerta de gatilho emocional: Kant é um perigo para os jovens!

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) envolve “gatilhos” ambientais que lembram o que causou trauma nos portadores: pense em um soldado com esse transtorno que ouve o estrondo de um rojão, o que lembra tiros e pode engatilhar uma resposta emocional traumática. O tratamento geralmente envolve exposição controlada a esses gatilhos, não validar o instinto do paciente de se esconder. Mas os justiceiros sociais, que são a pior parte da esquerda progressista, ignoram essa parte. Em seu meio, ser vítima dá status, então há uma corrida maluca para parecer mais vítima que outras vítimas. Daí há um estímulo para a hipocondria do autodiagnóstico com TEPT e outros transtornos, abusando da psiquiatria para dar um ar científico à sua sandice. Os justiceiros sociais já classificaram várias obras literárias como “engatilhadoras” de seus supostos traumas, inclusive as Críticas de Kant! Não é uma alteração do corpo do texto de Kant, mas foi devidamente atado a uma página de um volume da editora Wilder com as Críticas do filósofo, o que configura o “alerta de gatilho” (“Trigger Warning”) como uma alteração do que se espera encontrar entre as capas.

Monteiro Lobato: impróprio para crianças

Decidiu-se que alguns trechos das obras de Monteiro Lobato para crianças são racistas, especialmente na obra “Caçadas de Pedrinho” (1933), alguns deles mencionando a personagem Tia Nastácia. É dever das famílias educar as crianças para não serem racistas? É dever das famílias ensinar um bom código moral para as crianças? Não, é dever do Estado, é claro. Por isso, em 2010, um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) aconselhou que fosse posto algo similar a um “alerta de gatilho” neste livro, ou que então a obra fosse removida das recomendações do MEC. A polêmica rugiu especialmente nos dois anos seguintes, com propostas informais de alterar o livro de Lobato e reações às propostas.

Imagem extraída do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Foto: Reprodução.

Podemos considerar esta a versão brasileira da polêmica americana com o livro infanto-juvenil “As Aventuras de Huckleberry Finn” (1885), do respeitadíssimo Mark Twain, que, entre outras coisas que provocam a fúria dos politicamente corretos, contém um personagem chamado “Nigger Jim”. Há anos a tentativa é proibir seletivamente (por cor da pele!) o uso da palavra “nigger”, de conotação às vezes pejorativa contra negros e usada por senhores de escravos, mas que também é um termo de afeto intrarracial para rappers. Aparentemente não ocorreu a muitos a alternativa observada com as palavras “gay” e “queer”: simplesmente passar a usar de forma neutra ou positiva, eliminando pelo uso a conotação pejorativa. Combater expressões indesejadas com expressões desejadas. Mas qual é a graça de fazer coisas por vias não autoritárias? Em 2014, o STF rejeitou a sugestão do CNE de incluir avisos nos livros de Lobato. A recomendação do CNE é excluir o livro das escolas públicas.

Carmen de Bizet: apagando o “feminicídio”

Muitas censuras injustas são celebradas pelos preconceitos de boa parte do público. É o caso da alteração do fim da ópera Carmen, de Bizet, anunciada pelo Teatro del Maggio Musicale Fiorentino, uma casa de ópera de Florença. Se o leitor não sabia, deveria saber que a cigana Carmen morre no final, assassinada pelo amante ciumento. O tema é universal, está em Shakespeare, Machado de Assis e nas tragédias gregas. A universalidade do tema contrasta com a desculpa do arquiteto da censura, o diretor da casa, Cristiano Chiarot: estamos em outros tempos e a casa não é um museu para deixar as óperas exatamente como seus criadores as fizeram. Até o diretor da ópera estava resistente, mas no fim cedeu à pressão. Estamos em tempos que defendem as mulheres, então na versão censurada é Carmen que matará o amante. O que? Você achou que o problema era a violência? Não, o problema é o gênero de quem é alvo da violência, que é demais para nossos tempos feministas.

Curioso que considerem essa alteração censória da obra de Bizet algo “novo” e que reflete os nossos tempos. A censura feita com a defesa das mulheres como desculpa é antiquíssima: os pudicos vitorianos a usavam o tempo todo. As mulheres eram seres frágeis nos tempos vitorianos, precisavam de um divã especial para momentos frequentes de desmaio. Infantilizadas desde tempos imemoriais, as mulheres sempre conviveram com um sexismo condescendente que as trata como seres frágeis que não podem ouvir palavrinhas sujas, e aparentemente não podem ver o fim trágico de uma das óperas mais aclamadas da história. Se Chiarot quer proteger seus espectadores de verem esse tipo de coisa, por que não monta uma ópera dos Teletubbies?

Eis um balde de água fria genuinamente moderno: talvez a violência doméstica não seja o que feministas alegam que é.

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Com informações de Art Media AgencyBeacon for FreedomG1, Acorda Cidade e The Telegraph.